Só um garoto
Após algumas experiências com o celibato, conheci esse cara em condições normais, nada extraordinário. Deixei ele pensar que eu era para o bico dele e, em compensação, ele me fez acreditar que também estava se sentindo solitário pra cacete.
Ele soube ser legal comigo e era mais ou menos isso que eu precisava para facilitar as coisas. Perdão pela simplicidade, pela falta de um enredo promíscuo ou apaixonado ou cheio de traições e culpas e intrigas, mas é por aí mesmo.
Numa noite, há uns quatro meses, duas pessoas que não são mais crianças, dividiram uma ou duas garrafas de vinho, bateram papo, escolheram uma cama e fizeram sexo – calmo, íntimo, apaziguador, excitante, prático e redentor. Com direito a um desajeitado cafuné, como se fosse uma taça de sorvete de creme após o jantar.
No dia seguinte, sem muito o que falar um ao outro depois de uma transa que não envolveu nenhum tipo de câmbio além-corpóreo, nem eu e nem ele aparentamos qualquer tipo de melosidade, trauma anatômico ou irritação. E a vida continuou, como sempre: corriqueira e indolor.
Não sei quem inventou o protocolo de trocar telefones e se o sujeito orgulha-se disso, só sei que a pessoa com quem você dividiu alguns momentos estóicos coexistir na sua lista de alternativas para o futuro pode estragar o passado.
Como quem paga as próprias contas, liguei pra saber como estavam as coisas e as coisas estavam boas. Liguei pra saber o que ele andava fazendo e ele andava jogando videogame, futebol e sinuca, e também frequentando churrascarias e shows de rock ao ar livre.
Na outra semana, liguei pra saber o que tínhamos para hoje à noite e ele não atendeu porque corria oito quilômetros no parque. Liguei ontem e ele estava com vontade de ficar sozinho, havia montes de coisas que ele precisava botar pra frente.
Não era saudade, nem amizade, nem animosidade, nem qualquer outro sentimento associado a afeto, ou seja, nada que o Peter Frampton pudesse roubar para usar numa canção. Era só um garoto.
Era vontade de corpo. Nunca conheci uma garota que não gostasse de ser tocada de vez em quando. Às vezes tenho a impressão de que os rapazes não sabem realmente como funciona a solidão.