Só duas pessoas ficaram na cidade neste verão

True Love Will Find You in the End by Daniel Johnston on Grooveshark

Quando chego em casa, a caixa postal do meu telefone acusa duas novas mensagens de voz.

1) Oi. Sou eu. Eu quem, você deve estar pensando. Eu, de ontem, da chuva. Eu disse que ia ligar, não disse? Acontece que seu moletom já foi lavado, está seco e cheiroso, pronto pra ser buscado. Eu poderia ser secretária de uma lavanderia, você não acha? Desculpe, foi uma piada. Sem graça. Não sou muito de piadas. Desculpe. Me liga.

2) Oi. Sou eu, de novo. Só queria pedir desculpa pelo último recado, deve ter sido a febre. Sei lá. Bem, seu moletom está pronto. Mas eu já disse isso antes. Então não sei porque estou ligando. Bom, estou esperando você vir buscá-lo. Quando você quiser. Mas não hoje. Não estarei em casa hoje. Sei que pareço uma debilóide, mas incrivelmente tenho amigos e tal. E costumo ir ao cinema com febre. Enfim. Até mais.

Agora estou abraçado no telefone. É de uma garota que conheci ontem, no meio da chuva torrencial da estação. Só há dois habitantes na cidade neste verão, e ontem ficou bem claro que somos eu e ela. Ela se refugiou na parada de ônibus e perguntou se eu fizera o mesmo. Fingi que sim, mas na verdade há vinte minutos esperava o 177 - Menino Deus.

Ela tinha os braços cruzados, e eu um moletom na mochila. Sempre tenho um moletom extra, mesmo em dias de verão. Aí a garota, meio encabulada, disse que não era frio. Apenas sua blusa era branca e estava molhada. Demorei a entender. Quando entendi, contive um sorriso salivante.

– Sei como é – eu disse. E meio que sei, até. Só não tenho vergonha dos meus mamilos e acho que ela também não deveria ter dos dela. Pensando bem, eu deveria ter vergonha dos meus porque não servem pra nada, ao contrário dos dela, que daqui me pareciam multifuncionais. Bem, eu não prestara atenção nos mamilos antes dela tocar no assunto. Mas poderia apostar que eram belos, você sabe, os mamilos. Aí uma parte de mim quis conhecê-la. Emprestei o moletom.

Ela não é muito de sutiã. Mora logo ali, atravessando o Parque da Redenção. Cursa nutrição na federal. Não gosta de chocolate. E tem vergonha dos mamilos. E eu meio que me apaixonei direto e sem escalas. Como Tomas se apaixona por Tereza, em A Insustentável Leveza do Ser, só que antes da garota pegar uma gripe na minha cama.

Como você sabe que está apaixonado? Eu sei que estou quando me desperta uma furiosa e urgente vontade de cuidar, o que não ocorre todo dia, meus bonsais mortos sabem disso muito bem. Talvez eu não tenha amado os bonsais tanto quanto pensei. Já ela, basta espirrar e ter mamilos interessantes pra eu já ter vontade de oferecer uma xícara de chá, dizer eu-te-amo e troços do tipo.

As pessoas não se apaixonam muito hoje em dia, ninguém mais oferece moletons quando você está molhado. Elas preferem estudar, ganhar dinheiro e viver outras experiências. Faça uma enquete rápida e concluirá que quase ninguém crê no amor. Quando mais você sabe da vida, menos você se apaixona. A paixão nasce da ignorância: quanto menos sei sobre você, e mais eu quero saber, mais vulnerável eu fico.

Só que atualmente ninguém mais quer saber de ninguém, além de si mesmo. Todos uns cínicos. Se houvesse mais alguém em Porto Alegre, sei lá, um passante do outro lado da rua observando a parada de ônibus, o sujeito jamais veria duas pessoas encharcadas num encontro amoroso acidental. Mas sim, uma bela garota molhada e um retardado com os cabelos mal cortados, ambos em apuros. Só que não há outras testemunhas, além de nós. Estão todos na praia.

Não sei por que a população se defende tanto do que realmente quer. Aposto que a maioria daria o braço a torcer, se ganhassem uma chance. Só que talvez, para isso acontecer, elas precisariam enxergar muito além das paradas de ônibus. E mesmo sabendo que grande parte nunca terá essa sorte, meu conselho é não desistir. E ir com frequência ao oftalmologista.

Ou, quem sabe, apaixonar-se não seja só uma questão de sorte ou de interpretação; mas de estilo de vida. Não sei, e agora não tenho tempo. Há uns telefonemas importantes que preciso dar.