Não gosto de tatuagem
“Você não gosta de tatuagem?!” me perguntam em coro, quase aos berros, os amigos da garota que me chamou para a reunião social noturna.
– Sabe como é. Não gosto muito – eu me justifico, dando os ombros.
Tudo indica que magoei Victor (Escorpião-Rei na batata da perna), surpreendi Fernanda (golfinho na omoplata, até onde posso ver), ofendi Diana (tribal na lombar, iniciais dos pais no antebraço, uma cerejeira enorme cruzando do tornozelo à coxa) e irritei seriamente Erne (escudo do Grêmio no úmero, Homer Simpson segurando uma Duff na jugular e montes de outras sinalizações espalhadas pelos músculos, nenhuma apontando pra que lado fica o cérebro).
– É por causa da dor ou...? (Fernanda)
– Você não encontrou nenhum desenho que lhe agrade, de repente? (Victor)
– Ah, isso porque você não conhece a sensação. Assim que fizer a primeira não vai conseguir parar. (Erne)
– Nossa, eu pensei que o tempo de discriminar os tatuados havia sido ultrapassado. (Diana)
– Mas o que você tem contra? (Erne)
– Nada, quando estampadas em qualquer pele que não a minha – eu me defendo, sem esperanças.
Eles estão visivelmente incomodados das marcas no meu corpo serem todas de nascença ou decorrentes de causas naturais, como vacinas contra a catapora e coisas assim, sem grandes significados. Mas eu tive sorte com a popularização da arte, fosse trinta anos atrás eu estaria diante de uma gangue de motoqueiros sedenta por sangue no asfalto.
– Não é nada pessoal, gente. Já não gostava antes de conhecer vocês. E tenho certeza que os tatuados hoje em dia têm ótimas referências de caráter. Mas eu não curto muito.
Eles esboçam me dirigir um coletivo sorriso polido de compreensão, só que não. Eles são militantes a respeito da coisa, talvez trabalhem todos para o governo, como pressionadores sociais infiltrados. Supostamente é a esperança a última que morre, e não os assuntos que não vão chegar a lugar algum.
– Por quê? – Erne e um de seus quatro dragões me convidam a depor.
Onde está minha garota, que não me salva? (Ela é a prova do meu não-preconceito: possui três estrelas atrás da orelha esquerda e um caractere japonês pigmentado na cintura, que segundo o artista significa “Coragem”; embora eu tenha quase certeza de tê-lo visto no rótulo do último molho shoyo que comprei.) E esse estrogonofe que não fica pronto?
– Bem, Erne. Pra ser sincero eu quase fiz um “GC” no lado esquerdo do meu peito uma vez, em homenagem ao meu primeiro amor. Mas aí desisti daquela porra.
– Por quê? Ela chifrou você um dia antes? – Erne e os Dragões são de uma delicadeza comovente.
– Não, não. Fiquei com medo que as pessoas associassem a George Clooney e, sabe, eu não curti muito Amor Sem Escalas também.
Ou ele amou Amor Sem Escalas, ou ele não tem senso de humor, ou ele é secretamente a fim da garota com quem estou saindo, ou todas essas coisas juntas. Aí o gongo chama da cozinha (“pessoal, pessoal, o jantar está na mesa”). E todos comem em paz, que maravilha, até que Diana se levanta, serve-se de mais uma taça de vinho, escora o cotovelo no balcão e retoma de onde paramos. Cristo, até onde assisti no Discovery Channel, são os elefantes que nunca esquecem e não os tattoo-lovers.
– Mas você não acha que uma marca pessoal poderia, sei lá, diferenciá-lo do resto? Sabe, eu saio do estúdio com uma sensação maravilhosa de não ser uma pessoa comum, igual às outras.
– Eu rasguei a virilha num arame farpado aos onze e não lembro de ter sido tão maravilhoso assim.
Ninguém ri, a não ser, por motivos óbvios, a garota com quem estou saindo. Então eu escolho o caminho mais fácil e politicamente correto: digo-lhes que a ideia me agrada, que vou pensar a respeito, e da próxima vez que falarmos terei resolvido tudo apresentando-lhes algum borrão no bíceps – talvez uma hiena irritante, em homenagem a todos eles. Faço piadas quando me sinto desconfortável, mas acho que essa patologia não vai me impedir de apanhar.
– Deixa ele, gente. Não sabe o que está perdendo – essa é a minha garota. – Então, alguém gostou da filmagem de Um Dia? – Ela desconversa, até que enfim.
Se eu tivesse um pouco mais de curiosidade maldosa, subiria agora mesmo numa cadeira e diria alto que também não gosto de cachorros, nem dos filhotinhos. Não é de todo verdade, até gosto dos filhotinhos, mas seria divertido vê-los sendo arrancados do seu próprio mundo e assistir de camarote suas cabeças explodindo.
Mas isso seria como derramar um galão de gasolina sobre mim mesmo e acender um fósforo. Dá pra ver por que os alienígenas nunca foram claros e convincentes em suas abordagens terrestres. Vai ver receiam alguma hostilização por não serem adeptos de tatuagem, da igreja católica, de sexo grupal, de Dan Brown, de balada, de iPhone, do carnaval, por não existirem cachorros lá no planeta de onde eles vêm.
Não entendo os idiotas mimados e inseguros que compreendem como uma afronta outros indivíduos desdenharem de seus gostos pessoais e intransferíveis. Eu adoro doce de abóbora, Pepsi e Billy Joel e nem por isso algum psicanalista comprou uma casa na serra após uma década de exploração a esse meu problema de desajuste cultural.
E o irônico, se você gosta de ironias, é que, entre todos os convidados, só eu não tenho tatuagem. Quem é o diferente agora? Pressão social, eu ganho de você.