Gabito Nunes

Perto dos cataventos

Volto lá da firma a pé. Não vou de carro por causa do trânsito, não vou de bicicleta porque o suor e a lombada me rendem boas desculpas. Volto caminhando e aproveito pra gastar uns vales indo ônibus. Como eu disse, volto a pé, como sempre. Atravesso seis bairros e uma cracolândia. Uma hora e meia, todo dia útil. Eu gosto de acompanhar da calçada o drama dos motoristas que realmente crêem na buzina. Na calçada vejo a cara de choro dos trabalhadores estocados na janela, cruzando a rota Norte-Sul em passos de formiga, no calor do amontoado, lutando por nove centímetros quadrados a fim de repousar um pouco de mais um dia daqueles. É impressionante como uma sirene de ambulância não significa mais nada. Pode ser um infarto, um atropelamento, uma bala, uma queda no banheiro. Quem se importa? Um cara passa no vermelho e quase estende mais um garoto-esqueitista no asfalto, por causa de dezesseis segundos mais adiantado. A gente só quer chegar em casa e não perder a novela.

Água abaixo

Saindo cedo para o trabalho como todos os dias, topei com uma cena desmentindo aquele como outro dos meus “todos os dias”. O vizinho do andar de cima, aquele senhor velhusco e boca-suja que arrastava pés de cômoda às três da manhã, aquele senhor que pingava o ar-condicionado nas minhas plantas, aquele senhor que chamava minha namorada de “E aí, brotinho?” na caradura, aquele senhor, bem, morreu. Não vi o corpo por baixo da lona escura na maca da funerária, mas eu acredito no zelador. Ele morreu. Bateu as botas pela última vez no meu teto, enfim desceu do meu telhado.

Pão quentinho

Após perder meu terceiro encontro de turma consecutivo, alguns amigos sentaram comigo para conversar sério. Supostamente, eu precisava urgentemente reativar meu perfil na rede social ou cairia no ostracismo, como o integrante bonitinho de uma boy band da última década. No meio do sermão, me contaram que o telefone fixo é o novo código Morse, que secretária eletrônica só fica bem em Seinfeld, e que torpedos foram abolidos um pouco depois do fim da Guerra do Golfo. As pessoas querem estar comigo, apreciam minha companhia, não vivem sem minhas piadas infantis. Mas não querem pagar o preço. Quanto custa um recado de voz, que responderei assim que largar minhas chaves no parapeito do corredor?
 
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